Existe um elemento que reúne várias das tradições dos chilotes, tanto o valor da agricultura quanto o sentimento de comunidade. A maçã chilota tornou-se parte da identidade de Chiloé, com colheitas que contam histórias de famílias que continuaram por gerações com a colheita deste fruto.

A maçã tornou-se uma parte crucial da identidade chilota, sendo a chicha (uma bebida semelhante à sidra de maçã) o melhor acompanhamento para os longos dias de inverno e a maja de manzana Chilota, uma das festas mais esperadas do ano.

No início da temporada, as macieiras enfeitam os caminhos rumo ao hotel com sua linda flor branca com tonalidades rosa. À medida que o verão avança, é possível ver os pequenos brotos de maçã até que, de meados de fevereiro a meados de abril, poderemos ver sua fase completa de maturação.

Variedades locais e características

Após a introdução da macieira no arquipélago no final do século XVII, as condições deram origem a diferentes variações, das quais podemos destacar a camuesta, ingrediente principal da chicha de maçã. Esta variedade não é tão apetitosa para consumo in natura, mas sua acidez e suculência dão um toque especial à chicha. Atualmente, a camuesta está em perigo de desaparecer, pelo que conhecer esta variedade é também um convite para preservá-la.

Outra maçã conhecida é a febrera que, como o próprio nome indica, tende a estar pronta no final de fevereiro. Caracteriza-se por ser macia e porosa, e também pela sua doçura e aroma.

Por que a maçã funciona tão bem no território Chilote?

A alta umidade e os verões amenos e um pouco instáveis permitem que as maçãs amadureçam no seu próprio ritmo, concentrando aromas e um equilíbrio entre acidez e doçura. A proximidade com o mar permite a chegada de nutrientes e minerais que viajam através das brisas e aquíferos subterrâneos, dando um toque único ao sabor e à textura destas maçãs.

Além disso, o crescimento da grama facilita a infiltração da água da chuva e protege o solo da erosão. Porcos, vitelos, aves e ovelhas encarregam-se de fornecer nutrientes e matéria orgânica, ao mesmo tempo que mantêm o crescimento da grama sob controle.

Graças a uma intervenção humana mínima nestas colheitas e à grande biodiversidade de espécies existentes, esta colheita de maçãs assemelha-se à colheita de frutos silvestres da floresta.

Estas maçãs evoluíram em conjunto com a cultura chilota, adequando-se a diferentes ambientes e evoluindo no mesmo ritmo que os costumes em Chiloé.

A maja de manzana chilota

Com o passar do tempo, a abundância de maçãs exigiu uma gestão inteligente e eficaz, da qual se originou a maja de manzana, uma festividade que, a princípio, consistia em esmagar a maçã até o ponto de poder espremer o suco, o qual, após um período de 15 dias, pode fermentar até se transformar em uma bebida alcoólica, atingindo até 2% de teor alcoólico.
Esta maja tem sido motivo de celebração, união e comunidade, integrando os valores essenciais da comunidade chilota.

Diz-se que a melhor chicha é aquela que combina mais de uma variedade de maçã. Também se acredita que nunca se prova a mesma chicha duas vezes, pois a cada temporada os sabores se intensificam ou se diluem devido às condições climáticas.

A maja
Que aroma agradável invade o ar,
De chicha e maçãs, de ñaco e de pão,
Escorre o suco pelas canaletas
Daqueles cestos que vão e vêm.

Os barris cheios lá na adega
Esperam pacientes a fermentação,
E aquele doce néctar já se transformou
Em bebida alcoólica com outro sabor.

Histórias da minha terra natal: Vilupulli, Silvia Bórquez Macías

Mesmo com o passar do tempo, ainda é comum ver os chilotes colhendo suas maçãs, especialmente em março, para participar de uma maja junto com seus vizinhos. Durante todo o ano é possível encontrar garrafas de chicha no mercado local de Castro.